Arquivo da tag: viagem

Diário de Bordo – Belo Horizonte MG

A Vida De Viajantes alternativos sempre reserva surpresas. Às vezes, bastante interessantes.
Como sempre munidos de pouco planejamento e muita curiosidade, embarcamos na quinta de manhã rumo Belo Horizonte. Primeira surpresa: nosso voo era pra Confins. Fazendo um paralelo com São Paulo, é como se divertimos ido pra Guarulhos, e o desafio era chegar em São Paulo de verdade. Depois de descobrir que o Táxi custaria por vota de 95 reais, achamos um ônibus que levava até o outro aeroporto, o da Pampulha, por 8,90. Lindo!
Chegamos na lagoa da Pampulha. E nossa hospedagem era do outro lado dela. Resolvemos ir andando mesmo. Um pouco mais de 1 hora de caminhada e já conhecemos Mineirão, Mineirinho e uma ou outra paisagem da lagoa. O achado do dia: Um ponto de caldo de cana e frutas que vendia pedaços de abacaxi gelados a 2 reais.
_ O abacaxi mais doce que você vai comer!
Nosso desafio seguinte foi encontrar o número do lugar na rua. De repente era 400, depois o 621, depois o 570.. Quer dizer, negócio foi usar a sorte!
Nossa hospedam merece uma descrição a parte! Descolamos a hospedagem através do Airbnb, ou seja, uma casa onde a dona aluga quartos em um espaço compartilhado. Tinha tudo pra dar problema, mas não deu! A dona da casa, a Lily
_ Ele i ele ipsolon desde pequena!
Uma coroa superprafrentex recebeu a gente com toda a simpatia. O lugar, um quintal grande com galinhas, horta, árvores e vários puxadinhos. Ela nos acomodou em um pequeno apê no segundo piso, com sala, cozinha, banheiro e 2 quartos. Um seria nosso e o outro de um casal que chegou mais tarde. A sala, com dois sofás antigos e uma mesa cobertos com colcha de crochê e uma estante com tv, micro system e um toca discos. do lado, uma coleção de LPs de quem curtiu Woodstock. A cozinha com geladeira, fogão, pia e tanque, também tinha alguns utensílios disponíveis pra nisso uso compartilhado com o casal. Enquanto nos acomodávamos a Lily quis saber se precisávamos de algo e nos ofereceu, primeira lição de mineirês:

Lado Norte da Lagoa

_ Dentifrício. Vocês trouxeram?
Eu logo pedi pra que repetisse o nome local pra pasta dental pra que eu pudesse anotar.
Devidamente acomodados, partimos para o almoço. Um self-service próximo a hospedagem, chamado Toca do Côco, onde deu pra experimentar o famoso feijão tropeiro de Minas e aprender a segunda lição de mineirês. Aqui todo salgado em pacotinho é “chips”, inclusive batatas Ruffles.
— Cobra aqui no débito, por favor.
— (ler com sotaque mineiro) O chips também é de vocês?
— O que?
— (ler com sotaque mineiro) O chips!
— A Ruffles?!
— Isso!
(anotado)
Resolvida a questão alimentar. Próxima etapa, como bons turistas alternativos que somos, alugar bicicletas. Descobrimos através do site que a locadora de bicicletas ficava, apenas, do outro lado da lagoa. Nessa caminhada descobrimos que o lado Oeste-Norte da lagoa da Pampulha não tem lagoa. Só se vê mato (e plaquinhas escritas “Lagoa da Pampulha”, quer dizer). Mas as casas residenciais e locais para eventos são tão pomposas quanto nas outras margens.
O rapaz da locação de bikes tinha a simpatia comum aos mineiros que conversamos.
_ Tem diária sim. A gente bota as bicicleta novinhas lá procêis. A com marcha é 80 o dia a comum 40.
_ A gente gosta de pedalar sem marcha mesmo! 😀
Lembrar de levar cadeado da próxima vez que pretendermos alugar bikes, tivemos que comprar um. Bikes no pedal, seguimos pedalando no entorno da lago, sentido horário, conhecendo o Complexo Niemeyer. Museu de Arte da Pampulha (MAP), Casa do Lago, Iate Tênis Clube, igreja de São Francisco. O MAP é, sem dúvida, o destaque do complexo. As curvas características da arquitetura Niemeyer, jardins de Burle Marx (precisando de um cuidadinho) e lindas esculturas. Gastamos algumas horas nas gramas do MAP que oferecem vista pra lagoa com sombra e brisa fresca.
_ Moça, pode me dizer onde tem um mercado por aqui? Ou padaria com mercadinho?
_ Oh.. Cês seguindo essa rua aqui, depois da praça nova lá mais adiante, tem uma padaria. Mercado, mercado mesmo só depois do Mineirão.
Como “depois do Mineirão”, provavelmente, significaria subida, fomos atrás da padaria. Depois de pedir informação pra mais duas pessoas diferentes descobrimos o real sentido do “logo ali” do mineiro: longe toda vida.
O nosso segundo dia foi o dia de explorar a cidade no pedal. Resolvemos dar a volta pelo lado Norte da Pampulha, pra passar na locadora e dar uma acertada nas bikes e depois descer pela Presidente Antônio Carlos até o Centro de BH. Em uma nova comparação com São Paulo, seria como pedalar da Vila Mariana até o Capão, pela 23 de Maio com as subidas e descidas da Vergueiro. Os mesmos 22 quilômetros. Com as nossas bicicletas não preparadas para o percurso já é possível imaginar o quanto estávamos mortos ao final. Mas a nossa falta de fôlego quase nos causou problemas. Pois por desistir de um viaduto tentando evitar mais uma subida, pegamos um atalho por uma passarela de pedestres que quase saiu caro demais.

Nossas bikes

_ Oi?! Sabe me dizer se aquela passarela vai dar próximo à rua Curitiba?
_ Oh! Vai sim sabe. Só ceis descer e tem um caminhozim assim, ele vai dar nela.
_ Legal.
_ Mas eu tenho um caminho melhor procês. Cês vai pela passarela, daí tem um caminzin assim, cês pegam ele e vai dar nela.
_ Bacana, brigada.
_ Mas oh! Eu tenho um caminho melhor ainda. Cês vai pela passarela, daí tem um caminzin assim, bem ali de frente, cês pegam ele e vai dar nela.
Até agora não sabemos se o cara mudava de ideia a cada novo caminho, ou ele tinha algum tipo de toque. Passamos pela passarela que mais parecia uma feira-livre de tudo o que pode-se imaginar. A tal passarela terminava em uma região conhecida por Lagoinha. E a pior ideia que tive foi parar pra comprar uma água.
_ Olha água geladinha um real a garrafa!
Em dois minutos fomos abordados por três diferentes pessoas pedindo dinheiro, uma delas vendendo uma luzinha de alerta de bicicleta quebrada, os outros só pedindo grana mesmo. E na situação mais tensa da viagem. O terceiro tentou, sem muito disfarçar, levar minha carteira. Mas tropeçou e a ação dele, pra minha sorte, não deu certo. Saímos dali o mais rápido possível e poucos quadras a frente parecíamos estar em outra cidade. Prédios novos e bonitos, árvores estrondosas, um centro lindo.
No centro de Belo Horizonte existe uma praça chamada Praça da Liberdade.
_ Um lugar que vocês não podem deixar de conhecer é a Praça da Liberdade, ou como o povo fala por aqui, pazdaliberdade.
Ali se concentra o Circuito Cultural da Liberdade. Recomendadíssimo! São vários museus incríveis. Conseguimos visitar o da UFMG, de história natural, evolução humana e do universo, tem inclusive um planetário que infelizmente não conseguimos conhecer. E o Memorial de Minas Gerais Vale, com 4 pavimentos falando da história, artistas e autores de Minas. Ambos museus bastante hightech, com elementos sensacionais. Deu tempo ainda de curtir um artista de rua de qualidade que tocava um violão ótimo na praça, antes dos 22km de volta, pela Dom Pedro e a Carlos Luz (porque quanto mais caminhos diferentes se faz, mais coisas legais se conhece).
Acordamos pro terceiro dia em BH destruídos, por mais pedalantes que sejamos, não é todo dia que fazemos 45km de ladeiras em bicicletas simples. O programa da manhã incluiu uma visita ao Mineirão, ou ao lado de fora dele, que foi o que conseguimos conhecer. Mais uma meia volta na lagoa, assistir à um duelo de MCs no Museu de Arte na Pampulha e o melhor almoço mineiro do feriado. Um espeto à parmegiana com queijo de Minas no restaurante Churrasquinho da Lagoa. Até a vegana do rolê se fartou nas batatas fritas com temperinho especial, sensacionais e nas deliciosas mandioquinhas fritas. Recomendado.
Fim do terceiro dia, bicicletas devolvidas, mais meia volta, agora a pé, na lagoa pra voltar pra hospedagem, e nossa última lição de mineirês, uma guria local que ouvia um funk no seu radinho em um dos mirantes da Lagoa:
_ Essa tua tatuagem é muito esparrada.
Um olha para o outro.
_ Desculpa. A gente não é daqui. É muito o que?

Pampulha da Casa do Baile

_ Esparrada. Chama atenção assim sabe?! Que todo mundo quer.
Pra fechar nossa estadia em Belo Horizonte, havíamos combinado com o filho da Lily, estudante de gastronomia, um jantar vegano a critério dele. O casal que era nosso companheiro de hospedagem, também agregou a ideia e tivemos um jantar super agradável e saboroso, com alguns pratos que eu não lembro o nome, e um monte de troca de ideias com nossos companheiros de hospedagem e o anfitrião.
Um passeio pela borda do parque ecológico pra respirar a noite belo-horizontina e acordar cedinJuho para voar de volta pra casa.

O saldo desses três dias passados em Belo Horizonte foi bastante positivo. Algo que recomendo a qualquer um que for conhecer um lugar novo é: ande a pé ou pedale. Pergunte sobre tudo o que não conhecer. Converse com pessoas na rua. Troque cultura, ideias, sotaques, histórias, experiências. Certamente sua viagem será bem melhor aproveitada e as melhores lembranças trazidas na volta pra casa serão as recordações.

ps. Não deixem de clicar nos links ao longo do texto

O texto acima é um oferecimento @CrisFSantana (http://euarticulando.blogspot.com.br/2013/11/diario-de-bordo-belo-horizonte-mg.html).